
No filme "The Clement Garden", a personagem da atriz Charlotte Gainsbourg tem um caso com o próprio irmão. Numa determinada cena há um dos diálogos mais geniais do filme. Ela diz pro irmão:
"Garotas podem usar jeans, cortar os cabelos curtos, usar camisas e botas porque é legal ser um garoto. Mas para um garoto se parecer com uma garota é degradante. Você acha que ser uma garota é degradante, mas secretamente você adoraria saber como é. Não adoraria? Saber como se sente uma garota?"
Eu acredito que esse diálogo provoca vários debates. Machismo seria um deles. Outro debate que poderíamos fazer surgir seria os dos movimentos atuais da sexualidade nesta pós-modernidade. Nas ruas, há garotas cada vez mais masculinas e garotos cada vez mais femininos, visualmente falando. O descentramento do sujeito e de sua identidade em todas as instâncias gera ao mesmo tempo uma crise e um agrupamento. É o que Maffesoli chama de tribos urbanas. Posso citar várias: punks, hippies, emos, clubber... Querendo ou não, por mais que eu não me agrupe em uma tribo (e nem queira isso), eu estou inserido nesta crise da identidade que assola o século XXI. Vivo essa fragmentação com alguma consciência, o que já ajuda.

3 comentários:
Belo texto. Impressionante, na verdade... Afinal de contas, antes você odiava que se falasse em crises de identidade. Eu concordo com tudo o que você disse, isso é algo visível. Também não me enquadro em nada, eu sou a pessoa mais deslocada que já vi, acho que mais até do que você (que sai conhecendo.) Atualmente me sinto frustrado por perceber que sou relativamente preconceituoso com algumas, vamos dizer assim, tribos no sentido de não ver compatibilidade, por exemplo, entre a heterosexualidade e a postura de alguns emos. Ao meu ver, eles exageram e acabem sendo o extremo oposto do machão, que hoje é motivo de todos os tipos de gozação, embora ainda atraia muitas mulheres (eu sou primeiro a tirar onda). Ou seja, um é menos oito o outro é oitocentos.
Estive com uns pequenos problemas de saúde e enormes problemas de tempo, então meu blog está altamente defasado. Espero poder atualizá-lo daqui a uns dias.
Meu caro?! Boa, boa! (...) Cara, ainda continuo tirando onda com as tribos urbanas (mesmo que eu tenha me distânciado um pouco do velho rótulo 'gótico'). Cara, enquanto fui MUITO doidão eu apoiava (vide: ainda apoio) a kilt. Velho a 'kilt'´é totalmente aversa a postura do machão americano, kilt é uma sáia só aceita pelos machos indo-europeus. Cara, pintar unha, usar lapis e fazer o caralho a quadro realmente não tem nada haver com a sexualidade. São só elementos que ganharam uma predisposição, mas nada além. Isso é tão frágio que de uma cultura pra outra é fácilmente quebrável.
Enquanto 'tive a oportunidade de fazer um negócio de apoio a luta contra a AIDS. A instrutora frisava sempre que tinhamos que lidar com um fator 'oculto' na pravenção da AIDS. Fator esse, um homem heterossexual transar com outros homens (heteros ou não). Como esse cara é 'hetero' se ele transa com outros homens? Simplesmente não há uma resposta. É uma questão é "passar a informação e torcer pela prevenção", de modo que voltamos a velha fase dos rotulos. "Metrossexual", "Ubersexual", "Emossexual"? O que são isso? Me convenci que o ser humano é muito complexo pra receber uma tarja e um código de barras. Uma vez Daniela Ximenes me disse "são aprenas humanossexuais, é humano tendo prazer com humano".
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